Um salto de paraquedas
Eram 7:30 da manhã de sábado e eu não conseguia mais dormir. A previsão do tempo não poderia ser melhor. Sol, pouco vento e poucas nuvens. Além disso, o avião do aeroclube de Torres tinha voado até Novo Hamburgo e agora teríamos duas aervonaves exclusivas para o paraquedismo no CGPQD (Centro Gaúcho de Paraquedismo). Os emails rolaram durante a semana e teríamos um dia perfeito de muitas emoções.
Passei na casa do Bento (amigo que me apresentou ao esporte) e fomos pro aeroclube. Chegamos na área antes das 9h, mas não fomos os primeiros. No mesmo sábado também aconteceria mais um curso teórico, e logo chegaram uns 8 futuros paraquedistas. Também chegaram outros alunos em progressão (como eu) e vários atletas (paraquedistas formados).
Meu instrutor Newton e eu começamos logo o briefing do meu segundo salto do curso AFF. Objetivo deste nível: Curva de 90 graus à direita, curva de 90 graus à esquerda e deslocamento à frente. Fora isso, fui inventar de comentar com ele que tinha assistido diversos saltos do segundo nível no YouTube e a maioria deles tinha uma simulação de comando antes das manobras. Então ele adicionou isso no meu briefing também. Tudo isso teria que ser feito com perfeição em 40 segundos. Pouco tempo. Fiz umas simulações no carrinho e refiz todo o salto na minha cabeça umas 10 vezes. Concentração...
Coloquei o mesmo macacão azul da primeira vez e fiquei novamente parecido com um mecânico. O paraquedas Student com cerca de 20kg foi colocado nas minhas costas. Rádio funcionando. Altímetro regulado. Checks dos itens de segurança realizados. Tudo pronto.
"Que Deus abençoe nossa bagunça", foi o que o meu instrutor disse quando estávamos fazendo a última curva da pista antes de decolar. "Amém", eu respondi, e no mesmo segundo o Cessna 182 começou a acelerar para sua decolagem. Pouquíssimo maior que a aeronave do meu primeiro lançamento (Cessna 180), o avião de Torres era um pouco mais fácil de sair, devido à posições das rodas ser um pouco diferente.
O tempo estava realmente lindo. E lá de cima ainda mais. Cruzamos as nuvens que estavam a 5 mil pés (a mesma altura que eu iria comandar o velame principal) e seguimos ganhando altitude. Aos 9 mil pés nos cumprimentamos com um soquinho e gritando "Bom salto!". Coloquei os óculos, depois o capacete, conferimos o rádio e ligamos a câmera. Enquanto esperávamos a última curva de subida da aeronave, perguntei aos gritos para meu jump master, ajoelhado na minha frente, qual era a maior altitude que ele já tinha saltado. Não consegui escutar muito bem o que ele disse antes de gritar "22 mil pés", uma altitude em que é preciso usar máscara de oxigênio e a queda livre é de mais de 2 minutos.
10 mil pés. Chegou a minha hora. "Pode abrir a porta", grita o piloto, um guri de não mais de 28 anos. O Newton, meu instrutor, abriu a porta e assim começou o pior momento do salto, onde o medo é quase incontrolável. Como o avião ainda não estava 100% alinhado com a reta de lançamento, ainda vez mais uma leve curva para a direita (lado em que eu estava sentado, agora com a porta aberta) e eu novamente, como no primeiro salto, fico sério, pálido e me agarro no banco do piloto com força.
Pouco antes de sair da aeronave.
- PRONTO PRO SALTO? - grita o instrutor.
- SIM!
- QUAL NOSSA ALTITUDE?
- 10 MIL PÉS!
- OK, PONHA SEUS PÉS PARA FORA APÓS OS MEUS.
Ele sai da aeronave e se posiciona. Eu sento da porta, seguro o montante da asa e me posiciono, tentando controlar o medo à muita custa. Uli, o jump master 2, se posiciona na porta da aeronave. Grito "CHECK?" pra ele e ele responde "OK". "CHECK?" para o Newton também e depois de outro "OK" faço o movimento que indicaria que vou saltar (movimento da cabeça à cima, à frente and go!!).
Saída da aeronave: fim do momento de maior medo e início do momento de maior prazer.
Estabilizamos com facilidade. Simulo uma abertura, faço uma curva à direita com facilidade. A curva à esquerda não foi tão fácil, mas saiu. O movimento à frente poderia ser melhor, mas foi tranquilo também. Quando volto à olhar o altímetro, já estamos à 6 mil pés. Mais pontual que isso impossível. Cravo o olho no altímetro e aos 5,5 mil pés sinalizo que vou comandar. Puxo o ripcord e olho pra cima pra ver se o paraquedas está abrindo. Dessa vez os 3,5 segundos da abertura do velame foram tranquilos. Já sabia o que me esperava.
O velame termina de abrir e rapidamente faço o check visual e funcional, para ver se está tudo certo. E estava. Olho o altímetro e vejo que estou a quase 4 mil pés. Tempo suficiente pra "brincar" um pouco. Fazer um 360 é algo muito divertido. Você literalmente despenca vários metros para o lado que puxou o batoque. Outro 360 para o outro lado. Faço mais umas curvinhas menores para qualquer lado quando finalmente escuto no rádio o terceiro instrutor, Saulo, gritando. "Porra zero-um! Para de fazer essas curvas senão tu vai parar lá na puta que pariu!". Eu já conhecia o jeitão do Saulo. Dei uma risadinha com o ripcord ainda na boca e alinhei contra o vento.
O vento entre 2 e 4 mil pés é razoavelmente forte. Fui seguindo as instruções dele até chegar aos pontos ABC de navegação, aos mil, 600 e 300 pés, respectivamente. O Saulo me orientou durante o pouso e passei à poucos metros por cima da cabeça deles, na área de pouso. A Jú estava junto com o Saulo e a filmagem dela ficou muito legal. Dessa vez fiz o flare da maneira certa e pousei em pé, e não de bunda como da primeira vez.
"UHUUUUUUUL" eu gritei! Mais um excelente salto de paraquedismo. Meu salto número 2. Do meu instrutor? Salto número 3 mil, cento e alguma coisa. Agora é esperar o próximo final de semana e torcer para dar tempo bom.
Abraços e bons saltos para vocês!
Uhuuuuuu!!!
PS: Assim que pegar a filmagem do pouso edito o vídeo completo do salto posto aqui ;-)
Confiram o vídeo!


